terça-feira, 16 de março de 2010
O Corpo
Fonte: blogorgenea.blogspot.com
segunda-feira, 15 de março de 2010
Todas em Marli
Visitei a Casa Guaicurus, é impressionante como aquela casa, mesmo tão perto de onde moro, nunca havia me chamado atenção. Ao entrar, me senti muito bem, algo que a muito tempo não sentia. Uma moça, veio me receber em uma sala que se assemelha muito com a da minha família no interior. Devido as fotos na parede, o sofá com uma manta, tapete de arraiolo, além do delicioso cheirinho de café.
Quem me recebeu foi a assistente social, e com muita clareza me descreveu os atendimentos e atividades que acontecem, que me pareceram muito interessantes. Possuem atendimentos psicológicos com seções feitas em grupo e individuais, as seções feitas em grupos, ao redor de uma mesa de jantar, debatem temas como alcoolismo, drogas, saúde e vários outros, já as seções individuais são em aconchegantes quartos. Também contam com um consultório médico.
Durante essa visita pude notar a importância de um espaço que receba seus visitantes de modo afetuoso, estava em um centro de apoio mais me sentia ”em casa”, tanto pelo atendimento feito pelos profissionais tanto pelo espaço da casa.
Eu, Marli Dias Gomes, sou efêmera.
Sou 1, 2 sou todas as mulheres que entram ali na Casa Guaicurus.
Para a hora da folga
- Apesar de sozinha, tenho. amigas. Amigas não, colegas. Elas me chamaram para conhecer uma tal de Casa Guaicurus.
Dizem que lá é uma simpática casinha onde somos recebidas com respeito, coisa a qual não estamos acostumadas. Preconceito, preconceito, preconceito. Elas dizem que lá podemos entrar e conversar, como se estivéssemos em casa. Vou lá conhecer este lugar.
É isso: SOU UMA PROSTITUTA
-Eu sou Marli, prostituta.
As pessoas se assustam quando eu falo da minha profissão com tão pouca cerimônia. Mas essa rispidez com que falo é minha realidade.
Saí da minha cidade, aos 18 anos, com O sonho interiorano: uma “vida melhor”. Larguei uma família amorosa que agora, 20 anos mais tarde descobri que nunca mais veria. Chamo de família amorosa, pois mesmo não concordando com a minha decisão, juntaram dinheiro e me deram apoio para a minha viagem à cidade grande. Assim como eu havia prometido, eles pensaram que eu voltaria médica. Afinal nunca me faltou disposição para estudar e força para trabalhar. Talvez por essa promessa, que eu nunca cumpriria, tenha me faltado coragem de voltar para minha casa.
Estava sozinha na cidade. Sem dinheiro, sem emprego, sem apoio. As oportunidades que me apareciam eram indecentes. No principio neguei, mais quando dei por mim, eu estava me vendendo em um quartinho de hotel na Rua Guaicurus.
A dor de ter que admitir que minha vida, agora, se resumia em uma cama me consumia. Mas, sozinha na vida, descobri que não havia outra opção a não ser encarar a minha realidade.
É isso: SOU UMA PROSTITUTA.
A Idéia: Casa Guaicurus
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A partir da escolha da casa, passamos a pesquisá-la mais a fundo. Ela é uma construção de 1907 projetada pelo arquiteto Edgar Nascentes Coelho. Essa casa, que tinha originalmente uso residencial, é da Primeira Fase do Ecletismo com influências neoclássicas. Suas fachadas e seu volume foram tombados em novembro de 1994. Sua situação atual é de completo abandono. O telhado da edificação desabou e o que resta de pé corre o risco de ruir.
Após a análise da casa nos voltamos para a interpretação da vizinhança, que é marcada pela marginalidade. A Rua Guaicurus, é popularmente conhecida como a rua da prostituição, concentrando assim, um grande número de mulheres em situação de risco e vulnerabilidade. É importante ressaltar que essas mulheres vêm normalmente do interior para a capital e aqui vivem na maioria das vezes sozinhas e sem amparo familiar.
Surgiu então, a idéia de um projeto que alcançasse essas mulheres: uma casa de apoio chamada Casa Guaicurus.
Esse espaço, deveria ter características comuns de ambientes familiares. Desta forma preservamos ao máximo a planta original do projeto. Com isso queríamos remeter todas as mulheres que usam o espaço a pensá-lo como um porto seguro, assim como suas famílias.
A casa que nos escolheu
Nós, integrantes do grupo, encontramos na Praça Sete para começar a errância pelo quadrilátero. Descemos a Rua Rio de Janeiro observando todas as edificações do entorno. Mas nenhuma edificação nos chamou atenção de imediato, até chegarmos a Rua Guaicurus onde o estilo eclético da casa número 471 nos impressionou.
Apesar da enorme degradação da casa, nos sentimos acolhidos por ela. A grande riqueza de detalhes e o alpendre lateral nos transmitiram a sensação de aconchego e tranqüilidade, assim como em uma casa do interior.
Continuamos a flanar pelo quadrilátero do hiper centro. Encontramos algumas edificações que nos agradaram, como na Rua Guaicurus esquina com a Rua da Bahia número 112 e Rua dos Caetés número 200.
Mas nada tão encantador como a nossa primeira descoberta. Por isso decidimos usar a casa da Rua Guaicurus como base para o nosso trabalho. Ao escolher a casa, escolhemos naturalmente o empreendimento que faríamos ali. Pois ele deveria, invariavelmente, ter relação com a realidade do local.

