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terça-feira, 16 de março de 2010

Um encontro com o Autor

Fui ao encontro de Jano, e tentarei resumir os vários dias de conversa que tive com ele....



Antes de ser arquiteto, Jano já trabalhara com artes em geral e principalmente com dança e o movimento do corpo e só se interessara pela arquitetura quando descobriu o impacto que ela causaria não só com as sensações do corpo, mas também na mente. Seria impossível eu falar aqui de arquitetura com tal familiaridade antes desses encontros, se Jano não estivesse transmitido toda sua paixão pela arquitetura em cada palavra que dizia.




A escolha do local foi o galpão de 97 anos utilizado pelo curso de Engenharia Elétrica da faculdade UFMG (isso explica o motivo da fornalha e dos maquinários), mas que nos últimos 10 anos estava sendo usado como estacionamento, como dizia Jano, "Um desperdício em potencial".







Foto atual do galpão







Um dos maquinários








Outro maquinário





A fornalha



Parte posterior do galpão com vista para a fornalha ao fundo



Segundo ele o carro desumaniza o homem, impede o nosso contato e as nossas sensações com os que a cidade pode nos proporcionar, não só o tato, mas aromas e sons e paladar. Pensa também que a criação de novos espaços para os automóveis seria um meio de perder ainda mais esse elo entre homem e cidade.

O projeto de Jano para o funcionamento do lugar nada mais era do que atingir o homem em corpo e mente com todas as sensações possíveis. Que ele se emocione ali com o cinema e o teatro, que se sinta em casa e aprecie uma bom livro na parte destinada à leitura, com mesas e cadeirinhas enquanto se toma um café.
Que ele admire a arte de companhias que se apresentam suspensas no ar (por isso um grande vão no lado esquerdo do galpão, com cabos e cabos espalhados pelo espaço).
Que se impressione com a multiplicidade do local em cada movimento dos trilhos e cabos.
Que de manhã seja um lugar relaxante e cultural e a noite seja uma grande boite temática, com café/bar; DJ'S que se movem por cima de suas cabeças; com as luzes e espelhos que nos fazem criar mais espaços e maiores sensações.

Memórias de uma "Ex-Indústria"

Como ia dizendo, dessa vez era diferente, porque apesar da grandiosidade da construção, do estranhamento que me causava inicialmente me era familiar, o aspecto industrial. E quando dei por mim caminhava por entre os enormes pilares metálicos. Era aparentemente um galpão, que não só em seu exterior remetia um caráter industrial, mas também em seu interior poderia facilmente encontrar resquícios da mesma caracterização industrial, com a presença de uma grande fornalha e um maquinário, que dialogavam com o restante da arquitetura de uma maneira que eu não pensei que fosse possível... E não era somente o século industrial que dialogava com a modernidade, a diversidade de materiais poderia ser caótica; metal, vidro, concreto e madeira em um mesmo ambiente, mas ali só refletia o caráter multifuncional do ambiente.



Imagem interna do galpão


Não era somente na ambiguidade temporal que o ambiente mexia, mas com minhas sensações; dentro do lugar as sensações eram ainda mais intensas.

Primeiro fui tomado pelo excesso de informação, logo na entrada era possível ver quase todo o local, mas vi que não era somente um ambiente e tais ambientes se dividiam por sí só. E pela tamanha curiosidade que possuia em ver aquilo tudo, não sabia por onde começava a experimentar todos os espaços daquele lugar.

Comecei a observar primeiramente a textura do chão que se modificava, por entre os pilares metálicos em vermelho um chão amadeirado e na entrada parecia que pisava em tijolos de parede.


Imagem aproximada do piso


Mas logo a curiosidade por um grande bloco suspenso me levou a um segundo piso elevado, a uma altura aproximada de uns 6 (seis) metros, era um café/bar. Achei aquilo muito inseguro, até que quando cheguei a uma parte no qual o piso era móvel, percebi que era uma grande parte desse café/bar também era se movimentava por uma boa extensão do galpão. A insegurança desapareceu depois das sensações de se estar voando.




Imagem do café/bar

A direita do galpão havia uma área destinada à projeção de filmes ou à aprensentações de shows. Os assentos para se ver o filme eram suspensos, como se fossem arquibancadas que poderiam subir ou descer dependendo do fim que o espaço iria propocionar.


O cinema

No teto, aparentemente de vidro também era possível ver placas que se moviam, para brincar com a luminosidade que entrava no local.

Vista do telhado com placas móveis


Minha fascinação pelo lugar me levou a querer buscar informações e querer saber quem era o responsável pela obra. Perguntei a uma das pessoas que ajustavam alguns móveis por ali. Foi quando me disseram que o autor era chamado de Jano Domenig Bellostes.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Apenas por uma curiosidade

Olhar e não ver é o que, a maioria de nós, simples vagantes, fazemos...


O caminho trabalho-casa é apenas o trajeto, um obstáculo entre o fim do expediente de trabalho e a chegada em casa. Não passeamos pela cidade, mas corremos dela e o lar é o nosso refúgio. Poucos olhos são treinados para ver uma beleza no cotidiano, para ver possibilidades em um espaço qualquer no qual ninguém mais pára para olhar. E comigo não era diferente, quantas vezes quis que esse espaço entre meu trajeto do trabalho a minha casa fosse menor, que existisse um número menor de pessoas circulando pela cidade... Pessoas "normais", só mudam seus olhares quando sofrem um impacto por meio de alguma mudança radical e foi o que me ocorreu.

Alguém teve esse olhar para um simples galpão localizado na Rua Guaicurus no hiper-centro de Belo Horizonte, um local mais que inesperado para qualquer tipo de investimento cultural, por onde eu passava diariamente sem nunca ter realmente notado a presença dessa construção.





Vista do galpão em perspectiva (Digital)



Mas agora mais do que simplesmente chamar a atenção, o lugar brincava com minhas sensações. Eu não sabia se era a nostalgia que me atraia ou a curiosidade pelo novo. Foi exatamente isso! Não sabia se aquilo me remetia ao passado, ao modelo mais que familiar de uma indústria, eu que sempre trabalhei no setor industrial, jamais vi algo parecido com aquilo. Foi a primeira vez que me interessei pela arquitetura, antes mesmo de saber o que realmente era, antes de saber quem era o responsável pelas sensações que os ambientes nos transmitiam...


Eu nem mesmo conseguia identificar a utilidade do local. Mas dessa vez a curiosidade foi maior do que a intimidação, que normalmente esse tipo de construção grandiosa me causava... Achava que não eram projetados apenas para mim, eram projetos para uma classe a qual eu não me encaixava ou que um dia fosse pertencer. Mas dessa vez era diferente então entrei...